Imagine uma sala de aula em uma universidade brasileira. A aula é de história, o assunto, revolução francesa. Os alunos se concentram para absorver as informações que o professor, incansável, derrama sobre eles. O professor se vira, por um minuto, para escrever algo na lousa. Por uma fração de segundos, a sala parece estar em silêncio, mas logo percebe-se um murmurinho no fundo da sala. Duas estudantes conversam com entusiasmo sobre algo que aconteceu na noite anterior: “e ele xingou ela?” os alunos mais próximos se abstêm da aula, ouvindo a conversa das vizinhas: “é ele xingou ela de tudo, falou que ela não merecia mais ele”. Mais alunos passam a ouvir a conversa, o professor já voltou à sua explicação dos motivos da revolução. “E ela está grávida, né, mas não sabe se é dele”, uma delas explica, “ então ela não tinha contado, mas ele descobriu pela melhor amiga dela”. Metade da sala está toda ouvidos às garotas, ignorando o professor. “Ela saiu chorando e jurou que ia acabar com o namoro dele”, a amiga, desentendida, faz a pergunta que toda a sala queria fazer: “Eles não namoram???” Somente os alunos sentados nas carteiras mais distantes não prestam atenção aos acontecimentos da noite anterior, o resto da turma se pergunta se conhece os personagens da história. “Não”, ela responde, “ele namora a melhor amiga dela, mas traiu ela e engravidou a outra, isto é, ainda não sabemos se foi ele mesmo”. O professor nota a expressão de espanto dos alunos e chama atenção para que pare o falatório. Em silêncio, os alunos lamentam perder o fim da história.

Quantos desses alunos chegarão em casa e assistirão à novela?

Os principais assuntos de interesse das pessoas sempre foram ligados a problemas pessoais, escândalos e coisas do gênero, mesmo antes dos veículos de comunicação de massa. Desde que existe comunicação existe a moda, a manipulação e os líderes de opinião. Sempre existiram pessoas que criam modas e pessoas que a seguem, pessoas que criam opiniões e pessoas que aderem a elas, o que mudou, com a comunicação de massa, é a rapidez com que essas opiniões atingem as pessoas. O argumento sensacionalista de que a televisão imbeciliza as pessoas e as torna suscetíveis à manipulação, é extremamente simplista e não analisa os dois lados da moeda. A programação da mídia é definida de acordo com a audiência. Não é interessante para a comunicação de massa colocar no ar uma programação que poucas pessoas se interessarão, ela perderia o sentido. É por isso que ela é chamada de comunicação de massa, ela atinge uma grande porcentagem da população. Existe a possibilidade de manipular essas pessoas? Sim, é claro. Essas pessoas se colocam na posição de audiência passiva, elas se sentem confortáveis desta maneira.

Essa é, há muito tempo, a opção da grande massa norte-americana, por exemplo. Quando George W. Bush venceu as eleições de 2000, a população americana sabia que a maioria dos votos tinha sido de Al Gore, mas que o sistema político do país impedia a sua vitória. Nem por isso, os milhões de cidadãos que votaram em Al Gore saíram às ruas para reivindicar uma mudança política. A campanha política de Bush manipulou-os a esquecer o assunto e ficar em casa assistindo os últimos episódios de “Friends”, ou ainda reelegê-lo quatro anos depois? A televisão convenceu o público de que Bush era a melhor solução para o país? Foi ela que alienou a população, desprovendo-a de interesse político? Não. O cidadão americano só é patriota em relação ao que é externo, menos de 50% dela vai às urnas no dia das eleições presidenciais. Mas isso não vem da mídia e sim da educação.

Várias críticas vêm sido feitas em relação ao material didático nos Estados Unidos, isso não é novidade. Também não é novidade o fato de que poucas mudanças foram feitas em relação a isso. O governo tem consciência do poder que a educação exerce sobre um indivíduo. Se você abrir um livro-texto de história, por exemplo, usado no ginásio, vai se deparar com personagens heróicos, momentos de bravura, políticos modelo, entre outras deturpações da realidade. Pouco se fala sobre as guerras incoerentes, a escravidão, entre outras situações horrendas à que os EUA se meteram. Os livros de geografia pouco informam sobre o resto do mundo, e até mesmo os de filosofia pouco remetem os alunos a discussões polêmicas. As crianças e adolescentes são condicionados a não se contrapor às informações passadas, apenas absorvê-las.

Não surpreende que elas ajam da mesma maneira em relação à mídia. A verdade é que a mídia oferece mais informação do que seus livros didáticos e sua formação acadêmica, mas elas não aprenderam a julgá-las e interpretá-las segundo sua própria opinião. Portanto, elas se prendem àquela mesma programação, àqueles mesmos sites de buscas, àquelas mesmas revistas e jornais, sem se preocupar se as informações recebidas são ou não totalmente verdadeiras.

Isso não acontece somente nos EUA, mas no mundo todo, em diferentes graus e formas. No Brasil, pouco se investe em educação, temendo que um maior entendimento do público, causará mudanças políticas desfavoráveis aos que agora se encontram no poder. Na China, apesar do grande investimento na educação, ela ainda é focada em certos assuntos, deixando de lado questões sociológicas ou políticas que os levem à reflexão.

A manipulação da mídia está presente, até certo grau, na sociedade atual. Ela tem aparecido cada vez mais sutil, porém, continua agindo. Entretanto, eu acredito que ela tenha origem na educação, e não na mídia em si. Quanto menor o grau de interesse das pessoas em procurar diferentes opiniões, pontos de vista e versões dos fatos, hoje em dia disponíveis na mídia, especialmente na internet, maior a facilidade de manipulação das mesmas. E essa falta de interesse se deve a uma educação fraca, à cultura de passividade e à zona de conforto que essas pessoas cultivam. Deve-se culpar a mídia? Eu acredito que não. A mídia é um serviço a ser disponibilizado, quem lapida a sua programação é a própria população desinteressada. Previsões catastróficas de um mundo alienado, como a de Ray Bradbury, se provaram pouco prováveis após situações similares ascenderem e fracassarem rapidamente na Alemanha nazista, na China de Mao e entre diversas ditaduras. Mas pode-se verificar, hoje em dia, uma versão menos dramática de previsões como essa. A alienação existe, a manipulação de massa também, mas elas não são tão novas quanto o aparelho de televisão.

 

Bibliografia:

Lupovetsky, Giles. Metamorfoses da cultura liberal.

Bradbury, Ray. Fahrenheit 451.

Moore, Michael. Stupid white man. Edição britânica. Londres, Inglaterra: Penguin, 2001. 281 p.

Loewen, James W. Lies my teacher told me. New York: Touchstone, 2007. 444 p.